Minha Trajetória
Por mais de 35 anos, trabalhei como fisioterapeuta, nos quais 30 como fisioterapeuta pélvica, professora, instrutora e consultora.
Ao longo dessas funções, Marijke teve a oportunidade de conhecer e acompanhar mulheres e homens com disfunções relacionadas aos músculos do assoalho pélvico e à pelve — uma das regiões mais íntimas e sensíveis do corpo humano.
Seus pacientes buscavam ajuda para uma ampla variedade de queixas, como incontinência urinária e fecal, prolapso de órgãos pélvicos, dor durante as relações sexuais e dores na região pélvica ou no cóccix. Entre eles estavam também gestantes e mulheres no período pós-parto, que enfrentavam alterações e desconfortos decorrentes da gravidez e do nascimento de seus filhos.
Esses problemas íntimos, muitas vezes, são difíceis de compartilhar com outras pessoas. Ainda assim, muitos pacientes encontravam coragem para falar sobre suas experiências mais pessoais, incluindo vivências relacionadas à sexualidade, à dor e ao sofrimento. Compartilharam histórias sobre suas doenças — algumas delas sem possibilidade de cura — e sobre a perda de pessoas queridas.
Em muitos desses momentos, a escuta e a proximidade humana ultrapassavam o papel profissional. Houve ocasiões em que me emocionei profundamente e chorei junto com meus pacientes.
É impressionante perceber quantas pessoas carregam marcas profundas das dificuldades que enfrentaram ao longo da vida. Por trás de cada queixa havia uma história, uma trajetória única de sofrimento, superação e busca por cuidado.
Histórias que Me Moldaram
Ao longo de todos esses anos, ouvi inúmeras histórias. Histórias de tristeza, de traumas, de emoção e de superação, relatos que me tocaram profundamente e deixaram marcas na minha trajetória. Foram essas experiências humanas que contribuíram para minha formação.
Sou imensamente grata a todas as pessoas que confiaram em mim e tiveram a coragem de compartilhar suas histórias mais íntimas. Cada relato recebido foi um privilégio e uma oportunidade de compreender, acolher e cuidar de forma mais humana.
Todas essas experiências permaneceram profundamente gravadas em mim. Com o tempo, aprendi a acolhê-las como parte da minha própria história, reconhecendo que cada encontro, cada relato e cada vivência contribuíram para formar quem sou hoje.
Da Paciente à Tela
Quando comecei a pintar de forma intuitiva, acreditava saber exatamente de onde viria a minha inspiração. Imaginava que ela nasceria das inúmeras caminhadas pela floresta e pelos campos, dos belos cogumelos que tantas vezes fotografei e contemplei. No entanto, a vida revelou-me um caminho bem diferente.
Fui constantemente conduzida de volta às minhas experiências profissionais, aos meus pacientes e às histórias que compartilharam comigo. No início, tentei afastar essas emoções enquanto pintava — afinal, o que eu desejava retratar era a floresta e os cogumelos. Com o tempo, porém, acolhi essas vivências e permiti que encontrassem espaço nas minhas pinturas, transformando-as em uma expressão de luz, significado e esperança.
Expressão Intuitiva
Foi então que a vida colocou no meu caminho Ciara Gilmore, da Irlanda, com quem comecei a estudar pintura intuitiva. Foi através dessa forma de pintar que essas emoções começaram a emergir — e continuam a fazê-lo.
Curiosamente, tudo o que pinto acaba por despertar reconhecimento, sobretudo nas mulheres e também nas minhas colegas fisioterapeutas pélvicas. Nas minhas obras, elas veem uma pelve, uma bexiga, o assoalho pélvico ou simplesmente uma emoção, embora nada disso seja representado ou nomeado de forma explícita.
As pinturas parecem transmitir uma sensação de serenidade. É como se as minhas vivências encontrassem, finalmente, um lugar onde pudessem existir de forma transformada, plena de significado. Ao serem acolhidas na arte, levam paz não só a quem as contemplam, mas também a mim.